O fato de ser nascido em Budapeste, no ano de 1899, a época capital da província húngara do Império Austro-Húngaro, já seria por si, algo notório, e digno de uma boa conversa. Béla, nasceu no seio de uma família judia, seus pais  Abraham e Ester, bailarinos de profissão, transmitiram ao filho a paixão e o ofício, pelo que se diz em suas biografias mais famosas, Guttmann teve uma educação disciplinada e muito rígida, mas aberta às artes e principalmente à música. Aos 16 anos, Béla já lecionava ballet clássico, demonstrando que além de dançarino talentoso, dominou rapidamente os elementos da dança, porém a paixão por um esporte recém chegado ao leste europeu o encantou rapidamente: o futebol!
 

Como jogador, Béla começou sua carreira jogando num clube local, o Törekvés, entre 1917 e 1919, tendo-se tornado profissional num clube histórico da Hungria, o MTK, onde também apenas esteve durante duas épocas. Nessas duas temporadas, foi campeão húngaro, onde já protagonizaria a primeira polêmica de sua vasta história. Béla havia atuado no Törekvés no mesmo ano de 1919, antes de se transferir ao MTK, e as regras da competição atuais, não permitiriam que o jogador atuasse em duas equipes pelo mesmo ano, o que quase ocasionou perda de pontos ao MTK, segundo a história a questão foi contornada apenas com um pedido formal de desculpas feito pelo próprio Béla.

Nos anos seguintes à 1919, o caos proveniente do pós guerra, se espalharia por toda a Europa, de uma maneira cada vez mais crescente, Béla, ainda atuaria no time húngaro do MTK, até o ano de 1921, onde após uma onda de espancamentos e assassinatos de judeus na Hungria, em 1922, conhecida historicamente como Terror Branco, temendo por sua vida, tornou-se impossível a permanência no país, e por sorte, o habilidoso médio, conseguiu se transferir para o time austríaco do Hakoah Wien, da capital Viena, o clube é conhecido, por aceitar apenas jogadores judeus, nesse período crítico. Entre os anos de 1921 e 1924, Béla realizou quatros partidas pelo selecionado húngaro, antes do agravar da crise política no país, o que mostra que em condições normais, talvez seria lembrado como um craque do esquadrão nacional.

Béla como jogador do Hakoah Wien
 
Seus anos como jogador no Hakoah seguiram calmos, e foram suficientes pra criar uma boa identificação com o clube, em quase 100 jogos, durante os anos de 1922 a 1926. A famosa cidade americana de New York, era pregada na Europa, como uma Meca, aos judeus, e Béla se sentiu tentado, a explorar o novo continente, em sua nova aventura, começou jogando pelo modesto time do Brooklyn Wanderers , em 26, mesmo ano em que se transferiu para o New York Giants , sim, o homônimo futebolístico do gigante do baseball, a paixão nacional americana da época. Os clubes por onde esteve eram formados em sua maioria por judeus dissidentes da Europa, como se sabe, muitos levaram seus talentos e inteligência e ajudaram essa cidade a se tornar uma potência financeira, e por falar em finanças, nos USA, assim como muitos judeus, Béla começava a criar uma pequena fortuna. Que não vinha apenas do futebol, mas sim da venda ilegal de bebidas alcoólicas, que eram proibidas no país naqueles tempos.

Béla Guttmann jogando em New York

Sim, o lendário Béla, foi um taberneiro de sucesso em New York, e juntou uma bela (trocadilho infame) quantia em dinheiro, seu terceiro clube nos USA foi o New York Hakoah, que mostra mais uma vez como o patrimônio judeu foi influente na história do esporte no país, a própria história de Béla desmente que o futebol só chegou aos USA muitos anos depois, com a geração do NY Cosmos de Pelé e cia. Béla nos USA também testemunhou outro fenômeno histórico, o crack da bolsa de 1929, onde perdeu grande parte de sua recém-feita fortuna, fato o qual o deixou em grandes dificuldades nos anos seguintes, ocasionando sua volta para a Áustria em 1932, pelo mesmo clube que o acolheu em seu primeiro êxodo, o Hakoah Wien.

Em sua volta ao Hakoah como jogador Béla estava castigado pela miséria que o crack da bolsa lhe flagelou, debilitadíssimo, foi apenas capaz de fazer 4 partidas pela equipe, decidiu se aposentar, porém, sua forte personalidade, característica de liderança e inteligência o habilitaram para ser o técnico do time na sequência do fim de sua aventureira carreira como jogador. Começaria então, uma verdadeira LENDA fora dos gramados.

As duas primeiras temporadas como treinador foram sofríveis, lutando contra a queda no campeonato, mas reforçando sua qualidade como treinador, decidiu se transferir para a Holanda em 1935, onde protagonizou, outro fato inusitado, a primeira cláusula de contrato milionária, na história do futebol! O time do Enschede, hoje Twenete assistia de cadeira o domínio holandês, que desde aquela época já era formado por PSV, Ajax e Feyenoord. Então, Béla, num surto de sorte e magia, propôs ao presidente uma quantia milionária em contrato, caso o time ganhasse a competição, diz a lenda que o presidente aceito imediatamente, pensando ser impossível, porém, estava a rezar nas fases finais do campeonato, para que o time o perdesse, e não houvesse de pagar tanto dinheiro, e deu certo, o Enschede terminou em segundo, o que foi inusitado e inesperado de qualquer forma.

Béla retornou ao Hakoah, como treinador em 1937, já com um certo sucesso e fama por suas temporadas na Holanda, e no ano seguinte, 38, ousou retornar ao seu país para treinar o time do Újpest. Porém, os mais letrados na história, já perceberam que, esse período foi muito ingrato para os judeus, e a vida de Béla mudaria definitivamente nos anos seguintes.

Pouco se sabe sobre o que realmente ocorreu durante o período do holocausto, Béla não gostava de comentar muito sobre o assunto, porém, anos depois uma de suas biografias, feita com mais pesquisa, pelo inglês David Bolchover, revelou que após ser expulso do Újpest por ser judeu, ele logrou o cargo de conselheiro secreto do presidente do clube, e passaria o ano seguinte vivo, apenas pela peripécia de passar não se sabe quanto tempo, escondido em um sótão.

Béla esteve por algumas vezes bem próximo de ser uma das vítimas do nazismo
 
A história secreta de Guttmann, pois, repetindo, o mesmo não falava muito sobre o assunto, apenas traz outros fatores comprovados em 1944, quando ele se apresentou em um campo de trabalhos forçados, assim como milhares de judeus, e mais uma vez em uma nova e prodigiosa feita, ele conseguiu fugir desse campo, antes que seus companheiros fossem enviados para a morte nos campos de concentração.

No pós guerra, Béla volta a Hungria, por onde treina equipes como o Újpest, e o Vasas, vale a pena dizer que esse foi considerado um período de ouro para o futebol húngaro, que nos anos seguintes causaria grande assombro na Europa, culminando no vice campeonato mundial em 1954, perdido nos detalhes para a Alemanha. Sendo assim Béla consegue alguma projeção internacional e em 1949, foi convidado a dirigir a equipe italiana do Padova, naquele ano mítico para o Milan de Nordahl. Sua carreira sua característica de andarilho faziam certo sucesso, assim como o selecionado Húngaro e o clube do Hoved (Hungria) com seu esquadrão imbatível, que inspirava os dirigentes europeus de outros países a formatar um campeonato unificado europeu, o torneio mais famoso da época era a copa latina, onde apenas os países de língua latina participavam.

Guttmann foi treinador do lendário Milan que tinha em seu esquadrão Lorenzo Buffon, Nordahl e Nils Liedholm
 
Após alguns anos, Guttmann foi convidado a dirigir o Milan! Assim que chega, leva o time à vitória no campeonato em 1954-55. Em 56 em nova passagem pelo Honved, ele dirige o lendário time de Ferenk Puskas e Sandor Koccis, lendas do futebol mundial, mesmos esses não sendo mais os mesmos, o time é convidado para vir em excursão pelo Brasil, num intercâmbio que ficaria famoso, a presença de Béla na delegação que veio ao Brasil deixou profundas raízes na nossa história futebolística. Em 1957 Béla assina com o São Paulo Futebol Clube e impõe uma condição: contratar Zizinho, "Mestre Ziza", 35 anos, o jogador que encarnou o "futebol arte" no Brasil, o modelo e ídolo de Pelé, tendo-se tornado, uma vez mais, campeão. entre suas principais façanhas, implementa o sistema 4-2-4 no time campeão paulista, vale a pena lembrar que um ano depois, o Brasil ganharia sua primeira Copa de Mundo, usando o mesmo esquema tático, trazido ao país por esse lendário Húngaro.

Béla Guttman, Sandor Kóccis e Ferenk Puskás, no Honved em 1956
 
De regresso à Europa, o destino foi Portugal, primeiro no Porto, onde também foi campeão, e depois para um dos "grandes" de Lisboa, o Benfica onde se senta ao lado do técnico brasileiro do São Paulo, José Carlos Bauer, ex-jogador dos Mundiais de 1950 e 1954. Este conta-lhe que viu uma grande promessa em Lourenço Marques, Moçambique. Béla Guttmann manda um emissário e em dias, no final de 1960, Eusébio da Silva Ferreira chega a Lisboa. Final do Torneio de Paris, 1961. Béla Guttmann, desespera na final contra o Santos de Pelé, que vence por 3-0 no intervalo. A 20 minutos do final, coloca para jogar o Pantera Negra, Eusébio, que marca três gols seguidos. Guttmann dizia a Eusébio e aos seus outros jogadores: "Metamos três golos e já veremos". Este marca então três golos na partida, vencendo o Santos o prestigioso torneio por 6 a 3. O Jornal France Football titula "Eusébio 3 - Pelé 2".

Guttman com as duas taças continentais conquistadas pelo Benfica
 
Outra conhecida lenda de sua carreira, é a sua saída do Benfica, ocasionada pela renovação de contrato milionária que o treinador exigiu após o bicampeonato europeu, após a recusa do mesmo, Béla cunha uma maldição, em um eco que até hoje incomoda os benfiquistas:

Nunca nem em cem anos esse clube será campeão continental novamente.
-Béla Guttmann sobre o Benfica

Em 1962, o téncico em mais um êxodo impressionante, vem ao uruguai dirigir a equipe do Peñarol, e é vice campeão, em uma mítica final contra o Santos de Pelé! Sua carreira como técnico ainda se estenderia por mais dez anos, incluindo a seleção da Áustria (1964), volta ao Benfica (1965) e uma última passagem pelo porto em 1973. Mas se fôssemos detalhar cada pedaço, sobre cada etapa, dessa lenda da vida, do futebol e da história, precisaríamos escrever um livro, e que fosse à altura desse gênio, único no futebol!
 
 
Principais títulos como treinador:

Újpest FC
  • Campeonato Húngaro: 1938-39, 1946-47
  • Mitropa Cup: 1939
São Paulo FC
  • Campeonato Paulista: 1957
FC Porto
  • Campeonato Português: 1958-59
Benfica
  • Campeonato Português: 1959-60, 1960-61
  • Taça de Portugal: 1961-62
  • Taça dos Campeões Europeus: 1960-61, 1961-62
 
lista de alguns nomes treinados por Guttmann:

Ferenk Puskás, Sandor Kóccis, Lorenzo Buffon, Nordahl, Zizinho, Eusébio.